Clarissa Assis

20 primaveras, leonina e persistente. Estuda Comunicação Social, é apaixonada por livros, música, séries e culturas. Não gostava de chá, mas agora seu passatempo favorito é ler um bom livro tomando uma xícara de chá fumegante e meias fofinhas nos pés.

@proximaprimavera

Meu intercâmbio na Cidade do México, Jan-Mar 2020 (Parte I)



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Ao som de Tusa, escrevo esse texto sem fazer ideia do que pretendo deixar registrado aqui. Só sei que vivi tanta coisa nesses três meses de 2020, que não consigo acreditar no quanto minha vida deu uma guinada impressionante. Pra quem não sabe, aos 9 anos de idade eu me descobri ser apaixonada por inglês. Todo esse amor resultou em um inglês intermediário sozinha, durante 4 anos. Foram 4 anos que eu sentava na cadeira do meu quarto e escutava músicas e traduzia as letras, não porque sentia que estava aprendendo dessa forma, mas porque era meu hobby favorito. Foram 4 anos fazendo isso, até perceber que isso me deu um nível de inglês que eu não imaginava que teria se estudasse em uma escola de inglês. Com uma determinação que eu não sabia que tinha pra alguma coisa na época, me matriculei em um curso de inglês e me formei lá em mais 4 anos de estudo.



Durante meu Ensino Médio, descobri que meu maior sonho era fazer um intercâmbio. Via algumas pessoas conseguindo o Ganhe o Mundo pelo governo e eu não poderia nem tentar, pois estudava em escola particular. Me formei na escola sabendo tudo sobre intercâmbio e como funciona a high school americana. Parecia algo totalmente fora da minha realidade, mas eu não parava de sonhar com um dia ver isso acontecendo. Saí da escola direto pra universidade, pública, pois era um sonho por causa dos intercâmbios. No meu primeiro ano o governo cortou toda a verba internacional. Poxa, Brasil!

Continuei sonhando. Quando falo sonhar, não é imaginar isso acontecer, sabe? É ir atrás. Quem me conhece sabe que fui muito além de saber tudo sobre como se faz um intercâmbio.  Eu escrevia metas no papel, de tudo que eu precisava, o que precisava, quanto tempo pra conseguir o dinheiro. Posso dizer que me arrependi de ter sonhado tão fervorosamente e ter esquecido de aproveitar 100% meu presente. Eu não me importava. Em Maio de 2019, cheguei a conseguir um emprego ao mesmo tempo que em Abril fechei meu intercâmbio voluntário. Vi como a oportunidade que literalmente caiu do céu. Aceitei de cara. Comecei a trabalhar e fazer faculdade. Na época trabalhava todas as manhãs de segunda a sexta e estudava todas as tardes, com 5 matérias difíceis. Ao mesmo tempo, as encomendas na minha loja disparavam e eu revirava noites fazendo bottons e cortando papéis. Perdi a conta de quantas vezes almocei biscoito porque dormia tarde produzindo, acordava e ia pro trabalho e de lá ia fazer entrega, pra sair correndo pra faculdade.



É óbvio que eu sofri as consequências. Não tinha como eu conseguir fazer isso tudo ao mesmo tempo. Em Agosto recebi outra proposta de emprego onde trabalhava e passei a ser professora de inglês nos sábados. É algo que eu definitivamente queria porque amo inglês, e descobri amar ensinar. Mas esse extra no salário me fez ter dinheiro não só pra pagar o que eu queria do intercâmbio como também artigos pessoais que eu usaria por lá. Também reprovei 4/5 matérias do semestre na faculdade.

O que eu planejava pagar:
Taxa do intercâmbio R$1.600,00
Passaporte: R$260,00
Seguro saúde: R$680,00
Passagem de avião ida e volta: R$4.200,00
Total: R$6740,00

E eu "só" precisava de 6 mil reais em 9 meses. Na minha cabeça, era extremamente possível. Ganhando menos que um salário mínimo por mês, eu fazia contas e mais contas. Lembro que não comprei nem uma caneta com meu dinheiro nesses meses. Ainda bem que tive meu pai que continuou pagando meu aluguel e estadia em outra cidade, por causa da faculdade. Mas até nisso eu comecei a economizar. Na minha cabeça eu estava dando prejuízo pro meu pai, porque estava trabalhando e todo esse dinheiro estava indo para o meu sonho.
Fui ingênua.
Nossos pais vão nos apoiar até onde puderem e sou agradecida todos os dias por ter conseguido realizar um sonho meu com meu esforço e dedicação, mas também com o apoio moral e financeiro  dos meus pais. Até porque só consegui juntar os 6 mil mesmo, toda minha estadia de 2 meses no México foi bancada pelo meu pai, mas deixo claro que alimentação, transporte na cidade, ingressos pra museu, besteiras compradas, passagens pra outros estados - todo fim de semana eu ia pra um lugar diferente e gastei demais com isso - , deu em torno de NO MÁXIMO 4 mil reais. Menos do que minha passagem de avião.
O que aprendi com tudo isso?
Eu consegui. Lembro que senti um negócio estranho quando paguei a maior fatura do meu cartão de crédito de universitária, no valor de R$700, paguei em 1x o seguro saúde inteiro. Sozinha. Acabei precisando do seguro no México e, acreditem, R$680 por ele foi NADA, em comparação com minhas três idas à hospitais com internação que o plano cobriu tudo, mais de R$2.000.

Palacio de Bellas Artes, lugar que fui mil vezes, pois virou um "point"



Angelica, Bianca e eu. Angelica é uma brasileira que estava no mesmo projeto que eu do intercâmbio e a chica é a simpatia em pessoa. Bianca é uma amiga que conheci no Tandem e conheci pessoalmente e é uma das melhores pessoas nativas de lá que conheci nessa vida. 

Sem comentários sobre esse aí. Meu parceiro de tudo nessa viagem e vida. Agradeci demais por ter tido alguém comigo por todas as dificuldades que passei nesses dois meses. É sorte demais. 

Eu no Palácio de Bellas Artes. Nesse dia, eu, Angelica e Bianca (a que tirou a foto) encontramos dois youtubers do nada e gravamos um vídeo sobre as loucuras que já fizemos por amor. Até aquele dia eu não tinha feito uma, semanas depois sim hahaha

No primeiro local do projeto, ensinando algumas crianças mexicanas sobre as metas da ONU. Nunca vou esquecer essas fofuras <3

Em Teotihuacán nos meus últimos dias no México. Cansei subindo e essa pirâmide e nem foi lá essas coisas todas...

Cabrón (Kauana) e eu no metrô. Compartilhamos muitos rolês e loucuras no país. Expulsão de museu faz parte do pacote. Chegar tarde em casa e esperar pela outra pra não levar bronca sozinha também.

Uma carta que recebi de uma aluninha da escola do projeto. Chorei internamente e em casa chorei de verdade. O que ela escreveu foi o que precisei pra esquecer de um acontecimento em solo mexicano que me deixou muito mal com o México.

Na casa da Frida Kahlo. O lugar que eu mais queria ir na cidade e foi bem esquisito estar na casa dela assim.

Foto mais importante que tirei aleatoriamente. Essa significa pra mim o quanto mexicanos são amáveis.

Eu e minhas roommates fofocando tarde da noite sobre machos e sobre uma lenda que inventamos sobre onde morávamos.

Eu e um dos chapulines (inseto!!) que comi e depois de um tempo fiquei doente e fui internada com infecção intestinal. Será que foi isso?

No topo da Torre Latinoamericana, na vista mais bonita da Cidade do México.

Minha primeira turma na escola do projeto.


Esses dois meses foram os melhores meses da minha vida, de verdade, sem dúvida nenhuma. Valeu a pena. Foi mais do que esperava. Não sabia que iria me acostumar com outra realidade, mas sinto falta todos os dias do ambiente, da língua, das pessoas, das comidas (chocante porque odeio comida mexicana) e de saber que estava vivendo meu sonho. 

Comentei uma vez com meu namorado que do nada estou escutando música no metrô, olhando pela janela e eu sinto uma sensação muito estranha, de não acreditar que estou vivendo. É uma sensação 100% de gratidão, que eu jamais vou conseguir explicar de verdade. É ser grata ao mesmo tempo que não acredita que, dentre milhões de pessoas que tem sonhos, eu consegui realizar o meu.

La Llorona tocava no meu fone de ouvido e uma moça falou "con permiso", pra conseguir sair do metrô. "Gracias", ela sorriu. Lembro que sorri de volta com a mesma sensação. Quando na vida eu imaginaria que estaria vivendo isso? Um "con permiso" me trazia à realidade. Eu não estava mais traduzindo músicas no meu quarto no interior de Pernambuco, no Brasil. Eu estava passando dois meses sozinha na Cidade do México, no México.

Tive uma das maiores crises existenciais da minha vida na minha volta ao Brasil. Vou considerar aqui sendo a maior crise. Eu chorava compulsivamente e meu coração doía. Doía por crise de pânico. Dóia de dor mesmo e saudade. Medo de voltar a realidade depois de tanto tempo vivendo meu sonho. Medo de nunca mais conseguir ter aquela sensação. Medo de nunca mais conseguir rever as pessoas que deixei por lá. Tive essas crises de pânico e choro durante pelo menos 1 semana depois que cheguei.
Eu tinha a sensação de verdade que eu nunca mais conseguiria.
Essa era a mesma sensação que eu sentia quando pensava em realizar meu sonho. "Óbvio que não vou conseguir, muito louco!"
Quando me toquei sobre a repetição do meu psicológico, parei de ter crises.
Fiquei bem. Peguei meu caderno, escrevi minhas metas, o que preciso fazer, em quanto tempo e quanto dinheiro. O sonho nunca acaba. NUNCA.
Faz que nem as metas de Marketing mesmo, quando conseguirmos a meta, vamos dobrar a meta.
Sonha e vai atrás. Quando conseguir, sonha de novo e vai atrás de novo.
A única coisa que pode te parar é você mesmo e saúde.
Depois dessa pandemia, pensa que nada pode te impedir de tirar aquele sonho da gaveta.
Não vai ser fácil, não vai ser rápido. (Pro meu pai foi 30 anos)
Pra mim foram 11 anos. Não acho que foi muito. Foi o necessário pra viver o que eu tinha que viver até chegar no que eu queria e precisava.


Queria deixar um agradecimento especial (por nome!) a todas essas pessoas que fizeram parte da minha jornada e me ajudaram nesse tempo: 

Do Brasil: 
Mariane, por literalmente ter feito isso tudo acontecer. Se não fosse por tu eu não teria fechado o intercâmbio e não teria vivido isso. 
Caio, por ter sido minha companhia pra não surtar na imigração. 
Vivian, por ter me ajudado desde antes de chegar na casa e ter sido minha companheira dos surtos na casa das 7 mulheres. Me chama pro casamento! 
Kauana, por ter sido minha companheira dos rolês mais loucos e ter me ensinado sobre o metrô e me socorrido até depois de ter chegado no Brasil. Ó grande conhecedora de metrôs! 
Carol, por ter sido minha companheira de relacionamento. Nunca vou esquecer da gente chismeando sobre nossos boys e nossas inseguranças. Até hoje a gente se socorre sim! Puede que pase un año más de una vez, né?
Angélica, por ter me ensinado que a gente tem que se jogar nas coisas mesmo e ter uns rolê bem massa. Tu é top, chica! 
Milena, por ter me ajudado na minha mudança (no sobe e desce de colchão também kkkk) e me acompanhado em alguns roles pela CDMX. 
Eveline, por ter se disponibilizado pra me ajudar quando pensei que não tinha apoio nenhum e por continuar assim até quando eu cheguei. Me senti segura e acompanhada à distância!

Do México: 
Iván, por tudo, tudo, tudo, você sabe o que foi. Desculpa de novo pelo vômito kkk. Agradece a tua família de novo por tudo também. 
Bianca, por tudo também, você também sabe o que você fez. Precisamos sair de novo e repetir aquele pulque. Saudades! 
Bryan, por ter me buscado no aeroporto e ter virado um amigão. Tu é top! Quando eu voltar de novo, vou na sua casa fazer aquele strogonoff que prometi. Saudade também nosso nossos rolês, que não foram dates hahahah. 
Do Peru:
Kiara, por ter sido uma amiga pra mim quando eu precisava fofocar, desabafar e conversar. Não entendi até agora nossa conexão, mas eu sinto isso quando falo contigo. Espero que a gente consiga se ver em breve!! 
Da Alemanha:
Steph, por ter sido um apoio que eu precisava em um dos piores momentos da minha viagem. Obrigada por aquela madrugada. E também pelas nossas saídas pela CDMX!

Comentários

  1. Que showww Clarissa! Admiro toda a tua dedicação e esforço pra conseguir juntar o dinheiro em tão pouco tempo e conseguir ir! Parabéns! Eu também amooo inglês e sempre estudei sozinha, adoraria ser professora igual tu foi ^_^

    Beijinhos de longe
    tipsnconfessions.blogspot.com

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  2. Ahhh, eu tou tão feliz por você ter vivido esse sonho! Me lembro da menina que tinha medo de atravessar a rua no primeiro período da Faculdade e me orgulho da pessoa que você se tornou! Amo você, estou com saudades...

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