RESENHA: Todo dia a mesma noite - Daniela Arbex

01 abril 2018
Todo dia a mesma noite: a história não contada da boate kiss
Daniela Arbex
Editora: Intrínseca
Ano: 2018
Páginas: 236
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Sinopse: Daniela Arbex reafirma seu lugar como uma das jornalistas mais relevantes do país, veterana em reportagens de fôlego - premiada por duas vezes com o prêmio Jabuti - ao reconstituir de maneira sensível e inédita os eventos da madrugada de 27 de janeiro de 2013, quando a cidade de Santa Maria perdeu de uma só vez 242 vidas. Foram necessárias centenas de horas dos depoimentos de sobreviventes, familiares das vítimas, equipes de resgate e profissionais da área da saúde - ouvidos pela primeira vez neste livro -, para sentir e entender a verdadeira dimensão de uma tragédia sobre a qual já se pensava saber quase tudo. A autora construiu um memorial contra o esquecimento dessa noite tenebrosa, que nos transporta até o momento em que as pessoas se amontoaram nos banheiros da Kiss em busca de ar, ao ginásio onde pais foram buscar seus filhos mortos, aos hospitais onde se tentava desesperadamente salvar as vidas que se esvaíam. Foi também em busca dos que continuam vivos, dos dias seguintes, das consequências de descuidos banalizados por empresários, políticos e cidadãos.
 

     Está sendo extremamente difícil sentar e escrever sobre esse livro que me deixou de luto. Venho adiando o dia de escrever esta resenha ao máximo, mas chega uma hora que a gente tem que enfrentar e falar tudo, mesmo que o tudo que eu sinto não possa ser colocado em palavras. Esse livro era um dos meus desejados desde o lançamento, não só por eu ser apaixonada pelo jornalismo e estudá-lo na faculdade, mas também por ter sido muito afetada anos atrás, aos 12 anos de idade, por uma tragédia enorme que aconteceu naquele 27 de Janeiro de 2013. Ler esse livro foi como estar inserida de alguma forma em Santa Maria.

"Em menos de dez minutos, Homero descobriu que ele e a esposa haviam perdido tudo o que possuía valor na vida que construíram juntos. Não tinham a menor ideia de como continuar sem as filhas."

     Em 2013, todos os jornais falavam da tragédia que aconteceu lá em Santa Maria, no Sul do país. A boate Kiss pegou fogo com centenas de universitários, que tentavam se divertir após suas cansativas rotinas. Daniela Arbex entrevistou profissionais envolvidos naquele dia, familiares, vítimas e moradores de Santa Maria e reconstituiu os acontecimentos daquela noite de forma emocionante, mostrando que as sequelas desse dia ainda serão sentidas para sempre. 

"Era preciso continuar atendendo, mesmo após saber que o filho estava entre as vítimas. Naquele momento, os feridos precisavam dele por inteiro. Mais do que nunca, o médico teria que desempenhar seu papel."

     Doeu a cada página. Eu passei pelo luto uma vez só, mas lendo esse livro senti um aperto no peito tão forte que me lembrou aquele mesmo luto. Daniela consegue contar o dia a dia de inúmeros familiares das vítimas que morreram ou sobreviveram naquele 27 de Janeiro e é doloroso nos colocar no lugar de cada um deles recebendo a notícia que seus filhos estavam na boate que pegou fogo. Também doeu quando li sobre como pais desesperados tumultuaram hospitais à procura de informações sobre seus filhos. Ou quando alguns pais tiveram a dor de fazer o reconhecimento dos corpos de seus filhos tão jovens, que estavam apenas se divertindo e tentando seguir seus sonhos. 

     Todos os detalhes que Daniela Arbex faz questão de colocar nesse livro são dolorosos. Não seriam tão dolorosos se não fossem reais. Umas das cenas que mais me emocionaram foram as do recolhimento e reconhecimento dos corpos. Mais de 200 jovens morreram intoxicados, lutando para sair de dentro da boate e eu respirei fundo a cada parágrafo, lendo como foi a retirada desses corpos, que foram levados empilhados em um caminhão até um ginásio improvisado, onde foram estirados e prontos para reconhecimento pelos próprios familiares. Eu imagino que não tenha existido um sentimento pior do que ter a certeza de que seus filhos estão mortos. Na verdade, eu não consigo e não posso imaginar essa dor. 

     São capítulos e mais capítulos narrando o que aconteceu no dia 27 e nos dias e meses seguintes. Daniela mostra relato de médicos e da imprensa sobre o motivo do asfixiamento e a presença de cianeto no forro que pegou fogo e matou 237 pessoas. Começar a ler foi um peso, continuar lendo foi outro e terminar, com um sentimento de impotência, foi pior. A justiça ainda não foi propriamente feita após 5 anos da tragédia. Quando terminei Todo o dia a mesma noite, juro que segurei o livro contra o meu coração e fiz uma prece silenciosa. Desejei conforto às vítimas, familiares, profissionais envolvidos e aos moradores de Santa Maria. Estes nunca vão esquecer da pior noite de suas vidas. Por fim, desejei a justiça. 

"Na prática, os frequentadores da Kiss foram envenenados pelo mesmo gás letal usado nas câmaras de concentração nazistas, entre eles Auschwitz, na Polônia, durante a Segunda Guerra Mundial."

P.S: isso é mais um relato do que uma resenha, eu sei, mas não consigo fazer mais que isso com esse  livro. 

18 comentários

  1. Oi Clarissa! Que resenha marcante! Parabéns pelo seu texto! Eu não fui diretamente afetada pela tragédia, mas fiquei bastante angustiada com tudo, tanto que não conseguia ler e assistir tudo que se falava a respeito, a vontade de chorar era grande e confesso que ainda é bem impactante pra mim. Acho que o livro é de extrema importancia, um dia quando estiver num momento melhor lerei!

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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    1. Obrigada, Mi!! Sim sim, é bem impactante e lembrar da tragédia me deixa com o coração partido. Apoio ler em um momento confortável!

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  2. Oi, Clarissa!
    Eu entendo essa sua curiosidade de jornalista com esse tipo de livro, pois também sou assim.
    Normalmente leio livros sobre seriais killers e gosto de sentir como os jornalistas vão contando suas entrevistas e formas de pesquisa.
    Eu não sei se leria esse livro, pois acho a trama muito complicada e forte. Entendo quando você diz que a leitura dói e não sei se conseguiria lidar com isso agora. Mas sua resenha foi maravilhosa, parabéns!
    Beijinhos,

    Galáxia dos Desejos

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    1. Simmmm, eu AMO esse tipo de livro. Deve ser um mal de comunicador hahha
      É bem pesada mesmo, vale muito a pena ler, mas só se você estiver preparada :(

      Beijoss

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  3. Essas coisas sempre me causam uma grande indignação e sempre que leio sobre acidentes e coisas do tipo fico muito, muito mal! Esses dias descobri uma tragédia que aconteceu no show do Raiumundos também em uma casa de show, 20 anos atrás e fiquei muito mal. Os Delírios Literários de Lex

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    1. Tragédias em geral são horríveis, me fazem perguntar o porquê de tudo isso acontecer :(

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  4. Caramba! Que profundo. Ao ler sua resenha já fiquei com o coração apertado imagina com o livro, gostei da maneira que escreveu e já anotei a dica!

    http://submersa-em-palavras.blogspot.com.br/

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    1. Espero que você consiga ler, é um livro muito importante!

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    1. Espero que tenha gostado de conhecer essa obra :)

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  6. Oi, Clarissa!
    Que leitura pesada e triste.
    Se foi difícil ler, imagina para a jornalista que escreveu?
    Gosto de ler sobre histórias reais assim, mas nesse caso tem que estar com o coração preparado, né?
    Muito triste!

    Beijoooos

    www.casosacasoselivros.com

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    1. Exato! Eu imagino que deve ter sido muito difícil reunir isso tudo e conseguir escrever assim... E é verdade, tem que tá bem emocionalmente pra poder ler sim :(

      Beijoss

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  7. Oi Clarissa,

    Não sabia que tinha escrito um livro sobre o terrível acontecimento.
    Deve ser um livro bem triste e pesado mesmo.
    Bjs!
    Diário dos Livros
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    1. É triste demais, um dos mais tristes que já li :(

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  8. Minha irmã faz aniversário no dia 27 de Janeiro, e desde que aconteceu essa tragédia ela diz que o dia em questão sempre estará marcado por algo maior do que o niver dela, infelizmente, por um acontecimento ruim. Eu não sabia da existência desse livro, com os relatos e reportagens que acompanhei já fiquei imensamente angustiada e ao mesmo tempo revoltada, imagino que estes sentimentos me voltariam a tona se eu lesse esse livro. Mas, acho necessário que ele exista, para que não esqueçamos que a justiça ainda não foi feita.
    Beijo, www.apenasleiteepimenta.com.br

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    1. Poxa, infelizmente o dia 27 de Janeiro jamais será o mesmo! Você falou exatamente o porquê de devermos ler esse livro. É importante ter conhecimento do que aconteceu e lutar por justiça!

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  9. Estava ansiosa por essa resenha, não tenho coragem de ler o livro mas é como se eu tivesse completado a leitura pelas tuas palavras. Essa tragédia foi chocante e é importante que seja registrada para que ninguém esqueça e não se repita. Muito triste pensar em tudo o que aconteceu com pessoas tão jovens por um ato estúpido e inconsequente. É algo que eles nunca vão superar :/

    Boa semana
    tipsnconfessions.blogspot.com

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    1. É algo que o Brasil nunca vai esquecer e é impossível se recuperar dessa enorme perda! :(

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